sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O Fim da Tirania Arquitetônica

Estudar cinco anos ou mais em uma academia para conquistar um diploma mexe com a cabeça das pessoas. Um pensamento Lloydiano toma conta do recém formado e pode perpetuar por toda uma vida profissional. Essa linha de raciocínio do século passado, completamente ultrapassado, que o importante arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) defendeu, consiste em conceber e realizar o projeto da planta às luminárias seguindo uma ornamentação orgânica onde cada peça inserida faz parte da obra como as folhas fazem parte da árvore. Especializado em projetos residenciais, Lloyd contratava vidraceiros, marceneiros e serralheiros para seguirem seus projetos à risca nos seus mínimos detalhes. Qualquer alteração não determinada por ele antes ou depois da realização do projeto eram abominadas e interpretadas como foco perigoso de contaminação decorativa. Com seus projetos totalmente autorais ele considerava ornamentação como parte intrínseca de sua arquitetura enquanto os demais não passavam de decoração banal e fantasmagórica. Sua perseguição à decoração não se limitou aos artesãos chegando ao cúmulo de proibir categoricamente intervenções ornamentais dos próprios moradores. Para estes ele costumava dizer que o direito à decoração se resumia às flores frescas em belos vasos no nicho reservado a eles. O brilhantismo e a importância deste personagem (Lloyd) é incontestável, mas o avanço da arquitetura moderna sobre as artes decorativas resultou no seu empobrecimento. E percebemos fortes vestígios desta estratégia de atuação retrógrada em nossos arquitetos contemporâneos que teimam em impor à sociedade seu conhecimento acadêmico como verdade absoluta que na prática não representa a realidade. Em contrapartida existe a outra leva de arquitetos decoradores que teimam em seguir à risca os modismos do mercado com seus ornamentos banalizados, arquitetos estes que o próprio Lloyd e muitos outros já repudiavam com veemência em suas épocas.

Mas mesmo hoje sabemos que existem arquitetos e arquitetos, e já naquela época existiam profissionais de forte expressão que defendiam uma filosofia de certa forma oposta, mesmo continuando na linha modernista completamente avessa ao ornamento supérfluo. O arquiteto austríaco Adolf Loos (1870-1933) foi um bom exemplo. Segundo Loos, livres da influência dos artistas e arquitetos, os artesãos eram capazes de criar uma linguagem moderna para os objetos. Se os artistas decorativos estavam permanentemente preocupados em aproximar a arte da vida e em realizar formas radicalmente novas, e se os arquitetos eram incapazes de se desprender dos repertórios ornamentais, os artesãos, segundo Loos, faziam aquilo que precisava ser feito, ou seja, procuravam investigar as qualidades de cada material de modo a atender às necessidades objetivas de seus clientes. Embora não estivessem preocupados em criar coisas absolutamente novas, os artesãos, segundo ele, eram insuperáveis na criação de formas genuinamente modernas, mais simples e despojadas. O segredo da sua modernidade espontânea e imediata estava no alto grau de intimidade estabelecida com os materiais.

“Quando se trabalha unicamente a pedra, consegue-se pensar pedra, ver pedra. O homem tinha um olho pedra, que petrificava todas as coisas. O homem tinha adquirido uma mão de pedra, que transformava tudo espontaneamente em pedra. Sob o seu olhar, na sua mão, a folha da vinha, a folha do acanto, tinha um aspecto diferente daquele que sob o olhar, na mão, do ourives. Pois esse via tudo em ouro.” (Adolf Loos em “Os móveis de 1898”).

Naquela época na Inglaterra uma forte corrente mais centralizada nas atividades dos ceramistas, expeliu os artistas e arquitetos. Os ingleses diziam que não se deve desenhar, é preciso fazer. Misturem-se às pessoas e procurem saber o que querem. E quando vocês tiverem compreendido suas necessidades reais, ponham-se diante do forno ou do torno. A partir deste ponto o consumidor final adquiriu o hábito de ir encomendar suas cerâmicas direto ao ceramista.  Adolf Loos atento a esta corrente percebeu que ela se alastrou por toda a Europa influenciando outras atividades artesanais.

 Voltando à nossa realidade atual, eis que a coisa se repete. Não vamos entrar no mérito da importância do arquiteto para a construção civil que já se encontra bem abalada. Vamos focar em interiores onde se tornou comum o morador assumir a ornamentação de sua residência somando capacidade criativa aos artesãos. Precisamos de móveis sob medida vamos ao marceneiro, precisamos de vidros vamos ao vidraceiro. E com a era da informação livre e de fácil acesso podemos perceber uma evolução jamais presenciada dos projetos auto-concebidos. Fora o acesso livre também ao campo teórico/acadêmico onde basta possuir interesse pra ler os mais diversos livros, campo fértil aos autodidatas como eu. A própria ferramenta “projeto” caiu em domínio público e diferente dos ceramistas ingleses de outrora que dispensavam o desenho, eis que atualmente até um simples marceneiro pode se apropriar de avançados programas que geram projetos em 3D que são automaticamente transformados em executivos facilitando a expressão de seu impulso ornamental somado à sua capacidade criativa. Mesmo antes do projeto virtual, estes artesãos já dominavam o traço à mão livre e com um simples rascunho criavam peças com formas e ornamentos genuinamente contemporâneos. E exatamente por seu trabalho se afastar do extraordinário e muito menos cultivar esta pretensão, ele se mistura ao que é comum, passa despercebido e não é classificado como arte. Mas o que seria arte hoje em dia? E principalmente o que seria ético? Pois ornamentar móveis e construções seguindo estilos ultrapassados é no mínimo questionável. Não conhecer da história da arte permite ao artesão viver o presente.

Obviamente que como Marceneiro acabo enaltecendo o trabalho do artesão e valorizando sua importância perante a sociedade contemporânea. Ao contrário do que muitos pensaram, a indústria com sua produção em série não conseguiu no auge de sua perfeição e eficiência atender a todas as necessidades complexas do ser humano. E assim, em pleno século XXI, eis que o artesão volta a ganhar lugar de destaque. Estamos passando por um momento histórico onde a palavra de ordem é SOMAR, pois em uma residência atual o objeto industrializado divide espaço com o artesanal. Deixamos a máquina fazer o que ela faz melhor e o artesão se encarrega de chegar aonde as máquinas não chegam, realizar o que elas não realizam, muitas vezes, mais por questões financeiras em relação à quantidade de peças a serem executadas do que pela falta de capacidade por parte da máquina em realizar determinada tarefa. Na verdade o artesão contemporâneo esta se apoderando das máquinas e inserindo elas em seu meio produtivo elevando seu trabalho a um nível impressionante. Hoje é comum em uma pequena oficina de marcenaria a presença de um sofisticado Centro de Usinagem CNC disputando tarefas com o serrote e a plaina manual.  Outra questão que valoriza ainda mais quem “Poe a mão na massa” é a banalização e desvalorização generalizada da formação acadêmica. Fato este que proporciona ao artesão sem formação ser mais bem remunerado que o profissional graduado. Situação que só tende a se agravar aqui no Brasil seguindo os moldes europeus.

Hoje em dia a presença do arquiteto se resumi a vender status e para isto basta possuir um bom marketing para criar um nome no mercado. Ele não é pago pelo projeto e sua importância na concepção da obra/espaço, e sim pelo status que sua assinatura pode proporcionar ao cliente perante a sociedade, comportamento este que se restringe e é freqüente às classes burguesas. Mas mesmo esses indivíduos que ainda consomem este serviço acabam por contratar artesãos para complementar e quem sabe até modificar os projetos durante ou depois da obra. Virou rotina fazer a cozinha, por exemplo, que é o centro das atenções contemporâneas, com uma marca renomada de mobiliário possuindo a assinatura de um arquiteto e os demais cômodos passar para marceneiros/empresas anônimas fazerem.

Minha meta é ir além. São mais de dez anos dormindo e acordando pensando em móveis. Jamais um arquiteto que precisa se preocupar com a concepção e talvez execução de toda uma obra conseguirá competir com um profissional especializado como eu. O máximo que ele pode fazer é apontar o norte, pois basta uma questão técnica para ser necessário mudar toda a configuração de um projeto, ou seja, é mais fácil meu projeto influenciar o dele. Neste ponto tenho que concordar com Frank Lloyd, pois os  móveis podem levantar novas necessidades e/ou erros de lógica da construção, por isso fica difícil separar a obra da composição interior. É como o arquiteto Louis Sullivam (1856-1924) que influenciou e empregou Lloyd disse: “A forma segue a função.” Afirmação esta que sugere uma supremacia da função sobre a forma, mas que na verdade, segundo Sullivam, tratasse de uma relação recíproca. Acho muito interessante essa ideia que Lloyd defendia de uma única pessoa juntar todos os pontos desde a planta até as luminárias, mas para mim a participação das partes envolvidas é crucial. O ato criativo deve ser multidisciplinar. Cabe ao arquiteto separar o joio do trigo e conduzir a todos com seus argumentos. Postura esta muito diferente da tirania de Lloyd. Recentemente visitei uma obra onde as janelas dos banheiros não foram pensadas levando em consideração a instalação do box. Foi preciso um marceneiro mostrar o erro. O “arquiteto” chegou a perguntar ironicamente se eu era vidraceiro. Para fazer a adequação toda a estética simétrica da fachada seria comprometida ou o morador teria que engolir um box dividindo a janela ao meio. Detalhes, apenas detalhes, mas a perfeição mora nos detalhes.

Hoje defendo e é cada vez mais comum o cliente chamar o projetista de móveis antes de executar a reforma, pois assim o projeto exerce sua principal finalidade de prever possíveis mudanças ocasionadas pela falha de planejamento antes que elas se tornem evidentes a qualquer ser comum, e intervenções mais complicadas e onerosas se tornem necessárias. Para piorar chega a ser patética a tentativa argumentativa por parte do arquiteto em defender o erro como algo certo, algo pensado, chegando ao cúmulo de colocar a preocupação estética sobre a necessidade funcional do espaço, passando a defender a arte do improviso (verdadeiras gambiarras) para adequar o uso ao projeto, não admitindo possíveis intervenções na ideia original diante à variável eminente, mesmo durante a obra onde tal alteração não ocasionaria maiores gastos, pois para ele a função, o uso possui menor valor do que seu projeto e o morador é um mero coadjuvante. Assim o morador passa a ser apenas um usuário obrigado a sobreviver no espaço, privado da possibilidade de vivenciar o prazer de ora pertencer e ora possuir o mesmo, expelindo qualquer sentimento de valor. Não sou idiota a ponto de desconhecer a carga burocrática que pesa sobre os ombros do arquiteto que muitas vezes inviabiliza mudanças drásticas durante a obra, mas quem esta falando de grandes mudanças, estamos falando de detalhes que passam despercebidos aos olhos menos atentos que ocasionam grandes tormentos ao morador na banalidade do uso diário do espaço. Mesmo as mudanças drásticas poderiam ser previstas se o arquiteto fosse capaz de conduzir um debate sadio entre as partes envolvidas na obra em conjunto ao futuro morador já no estudo inicial. Para isso defendo a Maquete Virtual como forte ferramenta. Ela deve ser criada antes e não depois do projeto executivo, e com esse material em mãos o arquiteto pode se comunicar com eficácia com as partes envolvidas e muitas vezes ele mesmo com sua experiência pode assumir um olhar crítico sobre outra ótica perante seu projeto.

Não é segredo minha paixão pela arquitetura e aversão aos arquitetos. Rivalidade esta que visa um debate sadio e uma relação de igualdade entre as partes. Meu foco é cutucar os Leões adormecidos em sua inércia cômoda e segura. Assim como Adolf Loos, defendo que o arquiteto precisa pensar como artesão para ir além e agregar valor ao seu trabalho, mas infelizmente o cenário atual demonstra a incapacidade até mesmo do arquiteto em pensar como arquiteto.

Santo André, 26 de Fevereiro de 2012.

Fonte de Pesquisa: A Beleza sob Suspeita de Gilberto Paim.