domingo, 1 de fevereiro de 2015

Geração Z: Do vídeo game à bancada



A algum tempo atrás escrevi sobre a Geração Y (clique aqui para ler o texto) onde em linhas gerais eu explicava as características dessas pessoas nascidas em uma era onde avanços tecnológicos, que para gente como eu Tiozão na faixa dos 40 e tantos era algo assombroso, para eles é algo banal. Resolvi então escrever sobre a geração posterior a geração Y, a geração Z depois de duas experiências que tive com clientes meus que estão a procura de mão de obra para contratar.

Na mesma semana em duas empresas diferentes, sendo uma marcenaria e a outra uma loja de moveis planejados, nas duas situações tive a oportunidade de analisar currículos e entrevistar candidatos a duas vagas diferentes, sendo que na marcenaria precisávamos contratar auxiliar de serviços gerais e na loja vendedores jovens sem experiência no setor moveleiro para torná-los, após treinamento, vendedores projetistas.

Sou pai de uma menina de 18 anos e de um menino de 16 o que me ajuda bastante na hora de conversar com candidatos nessa faixa etária, mas depois de alguns currículos e algumas entrevistas pude notar características muito interessantes dessa nova geração de trabalhadores e trabalhadoras que estão chegando agora no mercado de trabalho. Vou citar algumas elencando problemas e dificuldades que empresários e funcionários podem enfrentar ao lidar com essas pessoas no dia a dia das empresas.

Porem antes de mais nada preciso explicar o que exatamente é geração Z:
Geração Z é a definição para pessoas nascidas na década de 90 até o ano de 2010. Segundo estudos essa geração surgiu como sucessora da geração Y no final de 1982 (começo do boom ecológico), ou a geração que corresponde ao nascimento da www, e no "boom" da criação de aparelhos tecnológicos. Esses jovens já nasceram completamente inseridos em um contexto ultra tecnológicos. Eles simplesmente não conseguem imaginar suas vidas sem os inúmeros ‘gadjets’ que para eles são parte integrante dos seus corpos como celulares, tablets, vídeo games e afins. O mundo deles e por si só tecnológico e virtual.

Vivemos hoje uma crise de mão de obra sem precedentes e a tendência é que nos próximos cinco anos essa crise se agrave tornando profissões como montadores de móveis e marceneiros sejam cada vez mais esquecidas e menos atrativas aos jovens de hoje. Diante desse cenário entrevistei alguns jovens e notei algumas peculiaridades, vamos à elas e suas barreiras dentro da marcenaria ou da loja:
Por viverem em um mundo virtual e tecnológico a informação chega em tempo real e em grandes quantidades para esses jovens. Se num primeiro momento isso parece ser bom logo em seguida pode trazer problemas terríveis de convivência e relacionamento entre líderes e liderados, porque a informação torna-se obsoleta muito rápido. Hoje em dia cada vez mais são os empregadores que precisam parecer atrativos aos empregados para que seu quadro de funcionários não sofra com o mal da rotatividade. Trocando em miúdos, ou você agrada seus funcionários tornando o ambiente de trabalho algo ao mesmo tempo desafiador e interessante ou você estará todos os meses buscando contratar novos funcionários para suprir as vagas abertas por aqueles que saíram em busca de salários melhores ou de um desafio profissional. E não se enganem achando que isso acontece apenas em níveis hierárquicos mais altos, pois até mesmo ajudantes e auxiliares trocam de empresas por esse motivo.

Se por um lado esses jovens tenham sua convivência baseada no mundo virtual e são bem resolvidos nessa área; no mundo real, o físico, a tendência é que eles tenham muitas dificuldades de convivência. Isso acontece porque a falta de experiências interpessoais causada por uma imersão desde cedo num mundo virtual que os permite ser o que bem querem tornam extremamente difícil seu relacionamento com chefes e colegas de trabalho num ambiente que limites precisam ser impostos. Perguntei a um jovem de 19 anos sobre trabalhar aos sábados e eventualmente aos domingos e ele me respondeu que isso não seria possível pra ele porque nesses dias ele se dedica ao ‘cosplay’ (você que esta lendo esse artigo e caso não saiba que raios significa essa palavra... cuidado a luz vermelha esta acesa). Aí perguntei a ele se essa atividade era remunerada, se trazia algum beneficio econômico e recebi um não como resposta!

Em marcenarias onde geralmente o marceneiro mais velho toma a maioria das decisões e serve como um líder implícito, um jovem recém contratado terá muitos problemas em obedecer ordens e lidar com tarefas repetitivas como embalar e transportar móveis. Já em lojas o relacionamento com gerentes e clientes em uma faixa etária mais avançada se torna um problema, pois sua capacidade de ouvir em muitos casos e reduzida pelo longo tempo de imersão digital onde o indivíduo é o soberano do seu diálogo e escolhe o tempo que vai responder à determinada pergunta escrita, por exemplo, em um chat do face ou no WhatsApp. No mundo virtual você pode escrever um texto enorme opinando sobre diversos assuntos e se as pessoas que vão ler esse texto não gostarem da sua opinião você pode apagar o texto ou então bloquear aquela pessoa. No mundo real num diálogo entre cliente e vendedor isso não acontecerá.

Outra situação que me chamou muito a atenção em uma das entrevistas foi a obsolescência. Ao entrevistar um rapaz pedi a ele que desse uma olhada num catálogo de MDF de um famoso fabricante a fim de tirar dele algumas impressões sobre o produto. Ele me perguntou como era feito o MDF, como eram determinadas as cores... Quando peguei outro catálogo para mostra a ele notei que o rapaz já tinha perdido totalmente o interesse naquele assunto, pois já tinha assimilado as informações que naquele momento ele julgava ser as necessárias para aquela situação. Naquele momento parecia que eu estava vendo meus filhos que logo depois de ganhar um brinquedo novo perdiam o interesse e largavam o brinquedo num canto qualquer. Um jovem assim se não for muito bem estimulado na marcenaria recebendo todos os dias novos desafios e tarefas ficará entediado muito rápido comprometendo seu rendimento e por conseqüência o rendimento da empresa.

Um fator que a meu ver é determinante no sucesso da relação contratante e contratado ao lidar com os jovens dessa nova geração é saber se despir do preconceito e saber interpretar a forma como eles se comportam fora do ambiente de trabalho. Entrevistei uma jovem que durante a entrevista estava com fone de ouvido. Não com os dois fones, mas apenas um. Resolvi então não levar aquilo em consideração e continuei a entrevista, só que em determinado momento quis saber o quanto ela tinha absorvido da nossa conversa e pedi para que ela resumisse com as palavras dela o que tínhamos conversado até aquele momento. A capacidade dela de se expressar verbalmente era muito limitada, pois acredito que faltava a ela naquele momento os ‘emotions dos chats’ e as abreviações de palavras tão comuns para eles e que nos deixam aterrorizados! Ela acabou se enrolado na hora de resumir nossa conversa e eu pedi que me falasse sobre o que estava escutando no fone. Era uma sequência de músicas da sua banda favorita, a One direction, que por coincidência e a banda favorita da minha filha também, e por isso eu sabia uma coisinha e outra sobre o grupo, e nos próximos cinco minutos tive uma verdadeira aula sobre música para jovens. Aí parei para pensar que a garota estava numa entrevista de emprego que poderia alavancar sua vida, trazer recursos financeiros, mas que naquele momento e em apenas uma parte do seu dia, tudo isso era menos importante que deixar de ouvir sua banda predileta.

Alguns podem falar que foi falta de postura da menina, que aquele ambiente não era para isso, mas no dia a dia isso irá acontecer com freqüência! Quantos lojistas bloqueiam o acesso à internet nas lojas? Quantos chamam a atenção dos seus funcionários por trabalharem com fones de ouvido?

Essa geração é conhecida como a geração silenciosa, pois sempre os vemos com seus famigerados fones de ouvido seja na rua, no ônibus, na escola na universidade. Talvez por isso eles escutem muito pouco e falem menos ainda trancados dentro dos seus próprios mundos.

O profissional dessa geração tem uma velocidade de raciocínio muito grande, porém perdem o foco na mesma velocidade por sua falta de capacidade de organizar sua rotina de forma linear ou mesmo pela falta de capacidade de ter uma rotina! Vendedores projetistas com metas a cumprir sentados dentro de uma loja esperando clientes ou vendas oriundas de captadores correm sério risco de se frustrarem com a profissão e migrar para outras áreas! Ajudantes de marcenaria ou mesmo meio oficiais que não participam da montagem, das decisões da marcenaria, que não são consultados sobre as mudanças dificilmente serão os marceneiros do futuro. Esses jovens da geração Z são um pouco diferentes da geração Y no quesito carreira. Se por um lado a geração Y tinha como característica se dedicar ao máximo aos estudos formais e carreiras de interesse, a geração Z olha com certa desconfiança quando o assunto é carreira formal, porque para eles isso e um tanto vago e distante. O que eu mais escutei desses jovens quando os questionava sobre seu futuro profissional foi que eles não sabiam pois todos os dias profissões nascem e outras são extintas. Os que entrevistei para a marcenaria nenhum afirmou que tinha pretensões de a longo prazo permanecerem na área. Todos estavam em busca de uma fonte de renda para poder se manter apenas.

Acredito que a curto prazo os empresários e seus gerentes precisarão se reciclar, porque essa nova geração, queiramos nós ou não, será nossa força de trabalho e todo crescimento seja de uma marcenaria, de uma loja ou de uma grande empresa está atrelado à sua mão de obra, ou seja, aos seus colaboradores.

Anderson Martins
Consultor Especializado no Ramo Moveleiro 
Palestrante e Instrutor de Cursos de Promob
Criador do grupo: Promob, Dicas e Ferramentas
Colaborador do grupo: Marcenaria BRASIL