segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A forma segue a função?



Como não posso ser complacente com essa aversão infundada e tendenciosa à decoração pretendo aqui tentar esmiuçar um pouco esse tema e quem sabe motivar aos amigos do grupo defenestrar de sua consciência esse preconceito congênito e quase arquétipo que se estende a toda sociedade.

Tanto o designer quanto o arquiteto defende fervorosamente que seu trabalho parte da premissa de equilibrar função e estética. Mas o que vem ao certo ser função e estética e quais suas implicações? Pois bem... Função está ligada à utilidade prática do objeto/ambiente, já a estética busca a harmonia das formas. Mas ao inserirmos a preocupação estética ao nosso trabalho, eis que inúmeras vezes transgredimos a própria função que se perde em meio a um turbilhão de valores simbólicos. Na arquitetura e no design a função sempre fica em segundo plano, consciente ou inconscientemente.

No intuito de embasar meus argumentos posso citar Jean Baudrillard em “O Sistema dos Objetos” onde ele afirma que só o objeto técnico no âmbito da aeronáutica, marinha, os grandes caminhões de transporte, as máquinas aperfeiçoadas, etc., segue intrepidamente sua função numa linha quase pura. Nesses objetos a preocupação estética é totalmente desnecessária e inexistente. E isso também pode se estender aos ambientes. Já o objeto cotidiano e o ambiente de uso comum possuem sua função deturpada pela preocupação estética submissa a efemeridade da moda e seus valores subliminares.

Ora! É fato que a decoração é uma ferramenta intrínseca à busca da boa forma (estética), pois só a manipulação da forma é por vezes insuficiente ao ato de harmonizar o objeto/ambiente. Neste sentido é do entendimento de todos que o ato de decorar (que aqui podemos adotar sinônimos mais eufemizados como ornamentar, enfeitar, adornar, embelezar, etc.,) não pode ser dissociado da estética. Vejam bem que decorar é muito mais do que apenas escolher vasinhos bonitos, cortinas elegantes e peças assinadas por designers famosos. Praticamente tudo o que fazemos é decorado, e no objeto/ambiente moderno podemos até afirmar que os adornos em sua antiga manifestação foram abolidos, mas na verdade eles só mudaram de aspecto, pois hoje brincamos com as nuanças das cores, texturas, brilho, fosco, acetinado, rústico, liso, etc. Até o ato de inserir no ambiente ou associar ao objeto elementos da natureza como fogo, ar, água, terra quando foge da necessidade funcional é decoração, mas mesmo possuindo uma função ainda pode ser decorado e/ou decorar. E mesmo na busca desvairada pela boa forma cometemos o pecado de decorar, pois ao aumentar, diminuir, extrair ou inserir partes desnecessárias ao objeto/ambiente estamos decorando.

Qual seria a origem “patológica” dessa aversão desmedida?

Modernismo x Revolução Industrial é a resposta com certeza! Tendo em vista que a racionalização excessiva de tudo e de todos que predominou nesta fase de mudanças extremas violentou a relação do ser consciente com seu inconsciente criando um hiato entre ambos. Com isso o ser humano perdeu o significado de sua vida ao negligenciar parte tão fundamental de sua psique e o sentimento de que “Deus estava morto” passou a dominar esta fase negra marcada pelos absurdos causados pela loucura coletiva antagônica ao racionalismo, ou seja, em sua busca frenética pelo que era racional o homem conheceu o lado mais sombrio do seu irracional (o Nazismo é o melhor exemplo disso). Neste campo ligado à psicologia eu invoco “O homem e seus símbolos” de Carl G. Jung onde ele defende todas as manifestações do subconsciente, e a decoração é uma delas, como algo essencial ao equilíbrio mental do ser humano. Digamos que tudo o que é belo é uma expressão do subconsciente. Mas voltando ao Jean Baudrilhard, eis que isso também serve como expressão racional do ser para com outro ser e para com a sociedade a qual pertence. É através dos objetos/ambientes que transmitimos as mais variadas e complexas mensagens subliminares aos demais humanos além de tentar suprir nossas próprias necessidades complexas. Podemos citar como exemplo o macho que possui um pênis pequeno e busca no carro uma forma de compensar o que lhe falta e a mulher que sente um vazio interior que abarrota sua casa com quinquilharias no intuito de preencher este vazio. Mas por outro lado esse macho pode apenas estar querendo alcançar certo status perante a sociedade e essa fêmea pode estar buscando embelezar sua casa para concorrer com suas amigas e familiares.

Se até os defensores do abstrato falharam na sua luta contra o naturismo expressando sua arte inconscientemente inspirada na microfísica (O homem e seus símbolos), eis que de forma análoga os designers e arquitetos repudiam a essência do seu trabalho ao taxar tão negativamente a decoração ou rebaixá-la a uma mera “cerejinha do bolo”.

Mas deixando as divagações de lado e voltemos aos fatos finalizando esta postagem...
Todos os seres humanos são decoradores em potencial. E os designers e arquitetos possuem este potencial melhor desenvolvido. Sendo assim o seu trabalho é proporcionar e facilitar uma comunicação mais eficiente entre o cliente e seu interior e principalmente com o exterior (não só com o consciente, mas com o inconsciente alheio e coletivo também).

No fim somos todos decoradores que vendem status. E até ao negar a busca pelo status assumimos um determinado status!

Santo André, 17 de julho de 2013.



(MARCENEIRO)