domingo, 10 de abril de 2016

[Revisão]: Semiótica aplicada a interiores










Semiótica:

Antes de qualquer coisa precisamos entender um pouco sobre o que é semiótica:

Doutrina filosófica geral dos sinais e símbolos, especialmente das funções destes, tanto nas línguas naturais quanto nas artificialmente construídas.
Estudo dos signos.
É sinônimo de semiologia.

O que é uma linguagem?

A linguagem é um instrumento que nos permite pensar e comunicar o pensamento, estabelecer diálogos com nossos semelhantes e dar sentido à realidade que nos cerca.
Ela pode ser matemática, de computador, as línguas diversas, as linguagens artísticas (arquitetônica, musical, pictórica, escultórica, teatral, cinematográfica) e as gestuais, da moda, espaciais e outras.
Toda linguagem é um sistema de signos.

O que é signo?

Segundo o filósofo Charles Sanders Peirce o signo é uma coisa que está no lugar de outra sob algum aspecto, ou seja, é uma representação desta segunda coisa. Ex.: O choro de uma criança pode estar no lugar do aviso de desconforto, de fome, de frio ou de dor; ou simplesmente representar uma birra de uma criança mimada.

Relação do signo:

            1 – Signo (significante): Representação de alguma coisa.
            2 – Objeto: Coisa a que o signo se refere.
3 – Interpretante (significado): Interpretação que varia de pessoa a pessoa e é influenciado pelo contexto ao qual o signo está inserido que dá significado ao signo.

Tipos de signos em relação a si mesmo:

            1 – Quali-signo – (Qualidade): uma qualidade que é um signo. Ex.: Cor.

2 – Sin-signo – (Singularidade): uma coisa ou um evento existente tomado como um signo. Ex.: Cata-Vento.

3 – Legi-signo – (Lei): é uma convenção ou uma lei estabelecida pelos homens. Ex.: as letras do alfabeto, as palavras, signos matemáticos, químicos.

Tipos de signos em relação com o objeto:

1 - Signo tipo ícone:
Onde existe uma relação de semelhança.
Ex.: Desenho de um galo com um galo.

2 - Signo tipo índice: Onde existe uma relação de causa e efeito.
Ex.: O chão molhado é um signo efeito da chuva.

3 - Signo tipo símbolo: Onde existe uma relação arbitrária.
Ex.: Todas as palavras que simbolizam as mais variadas coisas.
        O preto que simboliza o luto. O branco que simboliza a paz.

Fases da interpretação dos signos:

Primeiridade: Costuma-se dizer que é a primeira impressão, ou seja, interpretação instantânea e instintiva do signo;

Secundidade: O signo passa por uma análise mais crítica e racional ao qual a mente reformula a primeira impressão gerada podendo validá-la ou confrontá-la;

Terceiridade: Nesta última fase (que nem todos os signos alcançam) ele pode atingir o inconsciente do interpretante podendo aflorar sentimentos, emoções, sensações e/ou lembranças.


Como aplicar a semiótica em interiores?

            Em primeiro momento devemos deixar claro que é impossível criar um ambiente sem que a semiótica esteja presente. A única diferença e se o designer sabe ou não disso. E se sabe será que aplica de forma passiva ou possui pleno controle sobre esta ferramenta?

            Para iniciar a brincadeira precisamos identificar vários pontos e coletar uma variedade de dados pertinentes à busca da solução mais adequada. Entre elas podemos citar:

# Qual tipo de ambiente estamos trabalhando (comercial, residencial, corporativo, espaço público, etc) e confrontar com sua função (quarto, cozinha, recepção, escritório, estoque, etc);

# Qual o perfil do usuário (idade, sexo, quantidade, limitações físicas ou psicológicas, classe social, cultura e esportes, vícios, nível intelectual, cultura de consumo, preferências em geral);

# Quais as pretensões e necessidades do contratante que nem sempre será o usuário;

# Qual tipo e qual nível de percepção queremos provocar nos usuários de acordo com as variantes impostas pelo seu perfil;

# Estabelecer a lógica a ser seguida e a hierarquia dos componentes que irão compor o ambiente (função x estética; peças e posicionamentos fundamentais; estilo ou “espírito” a ser agregado ao ambiente; historicidade; o que deve ser inserido e o que deve ser anulado do que já existia nesse ambiente, nobreza dos materiais, etc);

# Identificar quais os elementos (terra, ar, fogo, água) vão ser manipulados neste ambiente em termos funcionais e/ou estéticos; quais percepções serão provocadas com a utilização de tal elemento;

# Estabelecer uma coerência funcional, estética e psicológica entre os acabamentos, materiais, texturas e cores aplicadas;

# Móveis sob medida, modulados, seriados, autorais, fixos ou avulsos;

# Iluminação, ventilação, aquecimento, isolante térmico e acústico natural e/ou artificial. Qual tipo;

# Este ambiente possui uma conotação artística, extremamente funcional, voltada para o espetáculo ou objetiva, carregado ou minimalista, extravagante ou contido, austero ou alegre, aconchegante ou vibrante, exige resistência ou delicadeza;

# Exclusivo, personalizado ou impessoal;

# Etc...Etc...


Para acrescentar: É preciso também deixar claro que o ambiente é uma linguagem. Mas cabe ao designer definir qual mensagem este ambiente vai transmitir. Se vai ser do autor para com os usuários, do dono/empresa para os usuários, somente do ambiente para os usuários, de um usuário para outro; e finalmente se ela vai ser explicita ou ambígua.

A psicologia ensina que o ambiente e seus objetos representam uma extensão do corpo humano com forte apelo erótico. Lembrando que o erotismo vai muito além da genitália humana e da consumação do ato sexual em si. Neste sentido cabe uma análise mais aprofundada, mas não comentada para uma melhor interpretação das necessidades e anseios de nossos clientes.

As pessoas buscam se comunicar com a sociedade através dos seus objetos e estas mensagens são deveras previsíveis pelo senso comum, mas podem variar de acordo com a personalidade, faixa etária, estado civil e condição social de cada cliente e somente um briefing bem executado pode fornecer os dados necessários para identificar o perfil desse indivíduo. Mas precisamos tomar cuidado com os devaneios que camuflam a verdadeira personalidade do cliente, pois a falta de intimidade e confiança pode influenciá-lo a criar um personagem daquilo que ele gostaria de ser. Neste caso nada é o que parece e nem tudo o que ele pede é o que realmente necessita. É recomendável “quebrar o gelo” o quanto antes demonstrando simplicidade e bom humor. É obrigação do designer sempre deixar claro as conseqüências positivas e negativas de cada escolha conduzindo o cliente a uma reflexão mais aprofundada de suas verdadeiras necessidades e anseios além das questões financeiras.

Em ambientes extraordinários de conotação artística/autoral como é o caso das mostras, showroon, espaços especiais comerciais ou públicos, etc; torna-se interessante estabelecer uma comunicação mais complexa e abusar da terceiridade, ou seja, da percepção mais interiorizada brincando com o inconsciente das pessoas possibilitando uma vivência, uma experiência única, especial. Para isso utilize os quatro elementos da natureza (água, ar, fogo e terra) além de provocar os cinco sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar). Nestes casos também se torna uma ousadia incluir uma provocação para atiçar uma pitada de sentimentos negativos como a repugnância, estranhamento, medo, crítica, etc; podendo com isso criar uma situação de amor e ódio capaz de tatuar sua obra na mente dos observadores/visitantes alimentando comentários posteriores.
                                                                                                                            
A utilização de obras de artes e peças assinadas deve ser bem conduzidas, como também o uso de matéria prima ou peças de suas parcerias, pois tanto o cliente quanto as pessoas que vão interagir com este ambiente precisam identificar qualidade real neste objetos e que estes verdadeiramente agreguem valor ao ambiente, caso contrário a comunicação será ineficaz e demasiadamente negativa em todos os sentidos.

Como esta parte da semiótica aplicada a interiores é uma criação minha baseada no meu conhecimento empírico e da minha capacidade ímpar de gerar polêmica e debate nas redes sociais (amor e ódio, rsrsrs), eis que fico na ávida espera de opiniões, críticas e elogios por parte dos amigos designers e demais profissionais relacionados.


Vamos inserir novos signos através do render:




















Qual a primeira coisa que veio a sua cabeça quando você viu esta imagem?

Numa análise mais aprofundada observando cada detalhe separadamente do todo somado à visão do conjunto o que mudou na sua percepção?

Identifique os signos tipo ícone, índice e símbolo contidos na cena.

Do que é composta a imagem/textura que reveste o piso e a parede? (Dê um Zoom na imagem). Qual sensação isso te provoca? Qual significado isso atribui isoladamente e inserido no todo?




















Qual a relação entre as formas dos componentes? E que função você atribui a cada um?

E o vaso branco sobre o componente branco? O que você tem a dizer sobre ele? Qual a intenção do autor em relação a esse vaso? O que sensação ele provoca?

Seguindo a lógica qual seria a textura aplicada na face inferior em contato com o piso destes elementos brancos?

Na junção de todos os signos dentro de uma interpretação no nível da terceiridade qual significado maior você atribui a este conjunto?


Luiz Mariano (Marceneiro e Designer Autodidata)