sábado, 17 de junho de 2017

O modernismo e seus contraditórios símbolos:







“O apartamento de todo jovem arquiteto, o quarto de todo estudante de arquitetura, era aquela caixa e aquele santuário. E no santuário havia sempre o mesmo ícone. Ainda o vejo. A sala de estar era um espaçozinho mesquinho nos fundos de um prédio sem elevador. O sofá era um colchão sobre uma porta lisa sustentada por tijolos e coberto com burel de frade. Havia mais burel de frade à guisa de cortina e no assoalho um tapete de sisal que deixava marcas cordiformes nas solas dos pés da pessoa pela manhã. O lugar era iluminado por lâmpadas térmicas com refletores de alumínio em concha em que se substituíam as lâmpadas térmicas por lâmpadas comuns. A uma ponta do tapete havia... a CADEIRA BARCELONA. Mies a desenhara para o pavilhão alemão na Feira de Barcelona de 1929. O ideal platônico da cadeira, puro aço inoxidável e couro de habitação operária, a peça mais perfeita em matéria de desenho de móveis do século XX. A cadeira de Barcelona alcançava o preço atordoante de 550 dólares, e isso no atacado. Quando se contemplava aquele objeto sagrado no tapete de sisal, sabia-se que se estava em uma casa onde um arquiteto novato e a jovem esposa tinham sacrificado tudo para trazer para casa o símbolo da missão divina. Quinhentos e cinqüenta dólares! Ela chegara a abrir mão do serviço de fraldas e estava lavando as fraldas no tanque. A coisa ganhou tais proporções que se eu visse uma cadeira Barcelona, onde quer que fosse, imediatamente – no clássico estímulo-resposta – sentia cheiro de fraldas desfraldadas ao vento.
Mas se já tinham a cadeira, por que a mulher ainda estava lavando as fraldas a mão? Porque uma cadeira era apenas metade do caminho para a Meca. Mies sempre as usava aos pares. O estado de graça, a Cidade Radiosa, eram duas cadeiras Barcelona, uma de cada lado do tapete de sisal, diante do sofá de porta, sob a luz dos refletores térmicos.
Se um rapaz sofresse e se sacrificasse dessa forma, cortasse as gorduras de sua vida mental e revelasse o brilho Mazda no ápice de sua alma – quem no mundo terreno exterior, poderia detê-lo?
Foi por volta dessa época, fins da década de quarenta e início da de cinqüenta , que O Cliente nos Estados Unidos começou a perceber que algo muito estranho ocorrera com os arquitetos.” (Da Bauhaus ao nosso caos, de Tom Wolfe, pág. 48)

















Comentários...

Como sempre o ser humano é contraditório ao abraçar caríssimos símbolos da humildade pseudo operária pseudo anti-burguesia. (Gargalhadas sinceras e extravagantes, hehehe).
Hoje vivemos uma realidade complexa onde ter dinheiro e fazer parte de uma classe social elevada não é mais alvo de inveja, pode ser de cobiça, mas de inveja não é, o que temos é um total sentimento de ódio para com os PENSADORES, sejam de que classe for. Os intelectuais de merda passaram a incomodar muito, todas as classes, como se o sistema corresse perigo eminente. A intolerância voltou a reinar em 360 graus.
Porém creio que as coisas sempre foram assim: Temos o hábito de louvar os pensadores do passado, os já póstumos que supostamente não apresentam mais perigo, mas pensadores atuais continuam sendo calos nos sapatos, principalmente os anônimos, os que estão entre o povo, pertencentes ao mesmo.
Ainda é proibido pensar diferente da maioria e pecado mortal expor tais pensamentos.
Outrora a cadeira Barcelona foi um caro símbolo de um movimento filosófico libertário e contraditoriamente doutrinador de massas, seguindo os moldes do nível moral convencional da Teoria do Kohlberg (psicologia, pesquise), onde todos de determinado grupo passam a pensar como se fossem um só, seguindo o líder sem questionar para poder continuar a fazer parte do grupo. A cadeira Barcelona passa a ser o símbolo de pertencimento a este grupo de arquitetos de espírito elevado, dos MODERNISTAS e sua obsessão pelo branco, transparências e materiais operários honestos não burgueses. Hehehe Defensores da industrialização, padronização de processos e uma forma linear e burra de pensamento sobre tudo e todos a meu ver. Desde então o arco-íris passou a ser preto, branco, cinza e berge. Sim! O cliente tinha o poder total de escolher entre estas cores de acordo com o seu bom gosto, claro, tremenda liberdade, se me permitem a ironia.
Obviamente isto é uma metáfora, antes fosse uma problemática apenas de escolha de cores dentro de um leque reduzido de opções...
Mas todos agüentaram firmes o modernismo, e continuam agüentando.
Pensadores são perseguidos e boicotados até por outros pensadores... Seres solitários de fato! (Pensadores também adoram bancar as vítimas da sociedade, oras, isso é modinha e nóis também mete o loko, claro, obvio, hehehe).












Luiz Mariano (Autodidata apaixonado por marcenaria, design, arquitetura, arte, psicanálise, psicologia, filosofia, sociologia, ..., e principalmente por mulheres bonitas, claro, hehehe)

Santo André, 17 de Junho de 2017.