domingo, 25 de janeiro de 2015

A Marcenaria Artesanal Contemporânea

Foto tirada na ForMóbile 2010

(Texto escrito em 03/06/2011)

Em meio a tantos avanços tecnológicos e produção em larga escala, eis que a Marcenaria Artesanal sobrevive e ganha força impulsionada pelo contexto atual que se encontra o Brasil e o mundo. Nunca se falou tanto em questões ambientais e inclusão social.

Num raciocínio rápido podemos dizer que uma Fábrica de Móveis Padronizados ou Modulados possui um papel mais amplo na sociedade, pois gera maior riqueza, mais empregos diretos e indiretos, pode investir mais no uso de energia e tecnologia limpa, transmite uma segurança maior aos colaboradores através do cumprimento das Leis Trabalhistas como um todo, produz mais com menos, etc. E isso se acentuou ainda mais com o crescimento econômico atual. Mas em contrapartida devemos lembrar que foram as micro-empresas, como as pequenas Marcenarias Artesanais, que sustentaram o país e absorveram grande parte da mão de obra que estas mesmas grandes empresas dispensaram com o avanço tecnológico e incontáveis crises financeiras antes desse pico de desenvolvimento que vive o país atualmente. Muitas pessoas encontraram no empreendedorismo a saída para o desemprego que assolava o país num passado recente.

Deixando os méritos do passado de lado, vamos nos concentrar no presente. Atualmente podemos observar uma grande valorização dos produtos artesanais. Praticamente só é viável usar matéria prima ecologicamente correta em pequenas produções para atender mercados de nicho por causa do seu custo elevado (isso tende a mudar com o tempo). Fora que produção pequena representa um consumo menor de matéria prima, ou seja, recursos naturais. Produzimos menos pra ganhar mais e agradar mais. Lembrando também que em alguns casos podemos reaproveitar matéria prima agregando ainda mais valor.

Outro ponto positivo é que o ser humano sempre gostou de produtos e serviços exclusivos, mas por falta de recursos acabava adiando seus sonhos ou improvisando com os produtos industrializados que possuem custo e valor agregado menor. Mas com o desenvolvimento econômico mais pessoas entraram no mercado de trabalho e outros passaram a ganhar melhores salários, e por conseqüência desenvolveram necessidades consumistas diferentes que até então estavam adormecidas ou adiadas. Bastou suprir as necessidades básicas de carro e moradia para que o consumidor passasse a correr atrás de algo mais.

(Nota: Esta afirmação que outras pessoas passaram a ganhar melhores salários é questionável. Um dos alertas é exatamente este. Quem já estava no mercado NÃO melhorou o salário, mas motivado pela mídia que alardeava o suposto crescimento econômico acabou se endividando. Hoje já podemos observar um superendividamento do povo brasileiro e uma crescente taxa de inadimplência. Sem contar que a falta de capacidade produtiva do mercado e investimentos em estrutura por parte do governo esta alimentando a inflação e condenando o crescimento econômico).

Outro fator que auxilia na sobrevivência das Marcenarias são os valores de caráter psicológicos que o “Estudo dos Signos” através da Semiótica (estudo da interpretação que é  dado pelo ser humano a tudo o que lhe cerca) nos explica. O ser humano sempre terá atração pelo que é tradicional e elaborado com as mãos do próprio homem. Prova disso é que muitos profissionais graduados após o término de sua carreira profissional passaram a tocar pequenas empresas como as Marcenarias Artesanais por questões de satisfação pessoal em “meter a mão na massa” (outro signo) e acabaram encontrando uma forte fonte de lucro que nem imaginavam existir.

Muitos podem questionar apontando o grande número de profissionais da área que vive em condições precárias e os vários outros que abandonaram a profissão, mas posso afirmar que faltou a esses profissionais, persistência e espírito empreendedor. Eles não sabem ou não souberam valorizar a profissão, o trabalho e os seus produtos.

Muitos quebraram a cara montando micro-empresas, mas outros venceram e realmente mudaram de vida. O empreendedorismo proporcionou uma verdadeira inclusão social em épocas de desemprego e desespero com sua estrutura enxuta e grande flexibilidade perante aos desafios do mercado. E hoje com esse crescimento econômico e com as atenções voltadas às médias e grandes empresas, muitos querem largar as micro-empresas de lado ou simplesmente largar de ser micro-empresa expandindo. Mas é bom lembrar que crescimento econômico e recessão são atrelados em ciclos. E no horizonte já podemos observar pequenas nuvens escuras se aproximando.

Não pretendo aqui plantar o pessimismo, mas sim a realidade dos fatos. Recomendo que os micro-empresários optem pelo caminho da qualidade e design primeiramente para depois quem sabe investir numa expansão física estrutural. Transformar sua produção artesanal em industrial e com isso engessar sua flexibilidade pode ser um tiro no pé. O que estamos observando pode ser só mais uma bolha de crescimento preste a estourar em nossas cabeças. Hoje ta fácil vender “arroz com feijão”, pois o consumo esta em alta e os grandes fabricantes não estão dando conta. Assim acaba sobrando para os pequenos, mas em breve o jogo pode mudar e concorrer com eles em tempos de escassez pode ser desastroso. E o caminho inverso de voltar a ser artesanal é extremamente difícil e psicologicamente doloroso.

A jogada é investir em tecnologia, mas jamais virar as costas para o artesanal que é o nosso diferencial. Produzimos rápido o que dá pra produzir rápido com o maquinário moderno. E com isso sobra mais tempo para fazer as peças mais elaboradas na unha. Seria como o acelerador e o freio do carro. Ou seja, não defendo de forma alguma fechar os olhos para os avanços do setor e continuar a fazer tudo do mesmo jeito de sempre com os mesmos materiais de sempre. Devemos evoluir, mas evoluir não significa necessariamente se tornar Fábrica de Móveis. A “arte” pode e deve continuar. Só precisamos nos adaptar.


Uma Marcenaria Artesanal pequena pode não significar muito para a sociedade, mas todas elas juntas a coisa muda de figura. Se plantarmos uma maior união da classe poderemos assumir um papel ainda maior...

MARCENEIRO